Asa Branca o ciclista retirante #cicloolhar


Quando olho a nossa (Casa Comum) cada vez mais quente, parecendo uma fogueira de São João.

Eu pergunto ao ciclista lá do céu, “por que tamanha judiação”.

Um calor cada vez mais anormal, desmatamento, inundações, ganância, injustiças, corrupção e poluição. Por falta d’água perdemos a trilha, o giro, onde ganhávamos o pão, faltam turistas, ciclistas, não temos trabalho, o verde está cada vez mais carecido, “morreu de sede meu alazão”.

Até mesmo Asa Branca o ciclista retirante, vendeu sua bike e foi embora do sertão. Adeus “rosinha” minha magrela, “guarda contigo meu coração”.

“O Caminho das Nuvens” estrada onde muitos/as pedalam e sonham com um roteiro de “cinemista”. Sou o Wagner Moura, andando de bicicleta, sou a Cláudia Abreu girando de bike.

 
Pôster do filme "O Caminho das Nuvens" do cineasta Vicente Amorim. Para "cinemar" (clique aqui e veja no YouTube) foto: Acervo/Globo Filmes

“Hoje longe, muitas léguas”, numa triste confusão, escassez de cidadania, labuta com salário digno, justiça, empatia e representação, sem ciclofaixas, ciclovias, placas de sinalização, sem espaço para “rosinha”, sou ciclista na solidão.

Com uma bag/mochila nas costas, celular na mão e uma “rosinha” alugada, dizem que virei um trabalhador, retirante dos tempos modernos, (ciber-operário). Espero entregar muitos pedidos, para comer e sobreviver, “juntar dinheiro pra mim voltar pro meu serão”.

Quando o verde da vida for prioridade de fato e se espalhar na plantação onde se cultiva a disputa entre capital, poder, vida e razão. “Eu te asseguro não chore não viu, que eu voltarei, viu meu coração”.

Em tempo de festas juninas comemoradas especialmente no nordeste do Brasil, (região muito carente) onde os poderes públicos esbanjam recursos financeiros, contratando grandes nomes da música nordestina e brasileira, é sempre bom repetir aquele velho vinil arranhado que toca há anos na radiola de agulha empenada. Como seria tão benéfico se Vossas Excelências tivessem o mesmo empenho para gastar com o básico, aquilo que está expresso em nossa constituição cidadã.

 
Centro de Jequié, no interior baiano, enfeitado para comemorar o São João, cidade de aproximadamente 150 mil habitantes, uma das muitas cidades brasileiras onde não existem políticas públicas para o ciclismo. (Na Bahia o Ministério Público anunciou aumento de fiscalização dos gastos públicos municipais com festas juninas) foto: @dadogalvao - @cicloolhar junho/2023) 

A Casa Comum do sul ao norte arde pelo direito à vida, saúde, trabalho, educação, segurança, transporte público sustentável, políticas públicas para quem anda de bicicleta cotidianamente, cultura e lazer.

Os festejos juninos devem ser preservados, festejados na sua essência, valorizando a cultura e o artista local, sem gastanças faraônicas ou aquele repetido marketing que tenta nos fazer crer que estamos diante de um investimento para o bem da coletividade.

Para que o forró seja dançado por todos/as é preciso simplicidade e equilíbrio, é como andar de bicicleta ou voar ao som de Asa Branca, cantada e pedalada pelo rei do baião Luiz Gonzaga.

Uma loja de roupas no Centro de Jequié - Bahia, exibe na vitrine um quadro de Luiz Gonzaga, pintado pelo artista local (Luciano Lelis). O São João movimenta o comércio regional, foto: @dadogalvao - @cicloolhar junho/2023.

CicloReflexão inspirada na música Asa Branca, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga. Sugerimos que utilizem o texto e o filme “O caminho das Nuvens” para (CicloConversas) na escola, comunidade ou coletivos de ciclismo, pré e pós festas juninas. 

Dado Galvão é ciclista, documentarista e idealizador do Movimento @cicloolhar
 
junho/2023